Ricardo Silvestrin & seus poemas


Poeta Ricardo Silvestrin, homenageado pelo Psiu 2015.

Poeta Ricardo Silvestrin, homenageado pelo Psiu 2015.

Ricardo Silvestrin, 18 títulos lançados, muitos prêmios e um homenageado

Ricardo Silvestrin é um poeta entre os seis nomes homenageados pelo Psiu Poético em 2015. Ricardo nasceu ainda no século XX, em Porto Alegre (RS) e talvez aos 22 anos comemorou o fim da Ditadura Civil-Militar Brasileira. É autor de inúmeros livros, tendo já lançados 18 títulos.

 

Entre os muitos títulos, destacam-se Metal (poesia, editora Artes e Ofícios, 2013), O Menos Vendido (poesia, editora Nankin, 2006), Palavra Mágica (poesia, Massao Ohno/IEL, 1994), Play (contos, editora Record, 2008), O videogame do rei (romance, editora Record, 2009), É tudo invenção (infantil, poesia, editora Ática, 2004) e Los Seres Trock (infantil, poesia, Topito Ediciones, Montevidéu, Uruguai, 2013).

 

Poeta Ricardo Silvestrin

Poeta Ricardo Silvestrin

 

Recebeu por cinco vezes o prêmio Açorianos de Literatura e foi finalista dos prêmios Brasília e Portugal Telecom. Foi editado no Estados Unidos na Antologia Mundial de Haicai, Frogpond. É também músico e integra a banda os poETs. É formado em Letras pela UFRGS.

 

Ricardo Silvestrin

Poeta Ricardo Silvestrim

 

Também estão sendo homenageados pelo 29 Salão Nacional de Poesia nesse ano de 2015, além da Ana Elisa Ribeiro, Auíri Tiago, Celso Borges, Eduardo Lacerda,Ricardo Silvestrin & Patrícia Giseli.

Texto pelo homenageado. 

 

há uma cidade por dentro

que percorre cada corpo

e aonde quer que se vá

ela vai junto

cidade dentro de outra cidade

é por isso que se diz minha

minha cidade

e sendo corpo

também dói e dá prazer

concreto abstrato

dissolvendo em lembrança

a argamassa

às vezes dói tanto

que se quer expelir

arrancar a cidade de dentro

mas é feita de tempo

matéria mais dura

que o cimento

 

***

não mais que a beleza de um artista
que faz o que quer porque sabe fazer
o que quer

não mais que a indiferença do tempo
transformando tudo em passado
até a grandeza

não mais que o afeto por coisas
idéias bichos pessoas
dado de graça

não mais que o ficar em silêncio
na beira da praia
com os olhos abertos

não mais que o respeito pela palavra
mesmo que ela seja usada contra você
e é

 

***

A invenção da dança

Antes da dança,
veio a música,
que nasceu dentro do corpo,
na batida do coração.
Batuca, coração, batuca.
Um dia a música
saiu pra fora
e foi pra mão.
Batuca, tambor, batuca.
O ouvido escutou,
mas o pé também
e começou a bater.
Até o dedão
chamou o dedo médio
pra estalar.
E a cintura
que era dura
foi para um lado
e outro
sem parar.
A música saiu
de dentro do corpo
e o convidou
pra dançar.

***

Anjos da guarda
não estão preocupados com o caráter moral da questão.
Mas não se iludam,
Einstein estava relativamente certo
explicando tudo
sob medida.
Além disso,
a outra volta do parafuso,
ziguezague,
espaço livre,
caminhos indiretos,
os novos sinais de fumaça,
existem maneiras.
Este ano ligue,
venha conversar,
aproveite este refresco.
Apesar da chuva,
meu nome.

***

pelo lado de dentro

no labirinto da madeira

um relógio de felpa

marca o tempo do móvel

riscos, reentrâncias

reparos na pintura

o pano pui

senta no móvel a criança

com seu pequeno relógio

oculto no labirinto da pele

e mesmo o relógio na parede

esconde um outro no centro

que ele nem sabe,

senhor iludido, dono do tempo,

um dia se paralisa

num eterno momento

***

O menos vendido

Custa muito

pra se fazer um poeta.

Palavra por palavra,

fonema por fonema.

Às vezes passa um século

e nenhum fica pronto.

Enquanto isso,

quem paga as contas,

vai ao supermercado,

compra o sapato das crianças?

Ler seu poema não custa nada.

Um poeta se faz com sacrifício.

É uma afronta à relação custo-benefício.

 

 

 

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***

mea culpa

falo blasfemo grito
como se tudo já tivesse sido dito
em vão

palavras loucas ouvidos moucos

eu sei
do céu ao chão
do sol ao léu

o réu sou eu

****

Piso o chão e calço o mundo

Piso o chão e calço o mundo
descascando este verbo revolto

Piso e soco o chão inútil
e calçando o mundo completo
rôo o fruto do verbo

agora manso
aro o chão
calço suavemente o nervo do mundo
e planto do fruto sua bandeira:
o caroço