Eduardo Lacerda & seus poemas


Eduardo Lacerda

 

Eduardo Lacerda: da estética à personalidade, poeta marcante homenageado 

Eduardo Lacerda é um dos homenageados do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético. O artista é Poeta, produtor cultural e editor. Autor do livro de poemas Outro dia de folia (Editora Patuá, 2012), premiado pelo ProAC – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

 Eduardo Lacerda

 

Atuou como produtor cultural da Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura e do Programa São Paulo: um Estado de leitores. Atualmente é editor da Editora Patuá, coeditor de O Casulo – Jornal de Poesia Contemporânea e diretor da Public.Inc – Incubadora de Publicações e Editoras Independentes. Apaixonado por poesia, cervejas e rock.

Também estão sendo homenageados pelo 29 Salão Nacional de Poesia nesse ano de 2015, além do Eduardo Lacerda, Ana Elisa Ribeiro, Auíri Tiago, Celso Borges,Ricardo Silvestrin & Patrícia Giseli.

 

Texto do homenageado

 

Fiel

Foi a curiosidade,

que o matou, não

o amor.

 

Eu.

 

(E ele sobe

no telhado,

 

o meu gato)

O meu gato

preenche todos os espaços,

baús, vazios,

 

caixas e pacotes

de presentes

 

e ausências.

 

Todas as fossas,

fundos, planos

e passados.

 

Ele fareja, mas

ignora.

 

Ele não me espera,

do lado de

fora.

 

É só um animal.

que não faz

nenhuma

festa.

 

E se engasga

com seu

bolo

 

de arestas.

 

***

A última Ceia

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas
). /

Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.

***

Candelabro

That sad answer, “Never – never more.”
(Edgar Allan Poe)

Já a primeira vez que foi a um
cemitério a mão cobriu seus
olhos que choravam e sussurou:

– Nunca acenda velas em casa,
que os espíritos acostumam
e não raro nos acompanham –

Nunca mais acendeu
velas em casa, tinha era
medo dos espíritos.

Teceu-lhe a vida muitos passados,
outras passagens ao cemitério, das
últimas vezes já as trazia roubadas.

Nunca quis acender velas em casa,
tinha era medo dos espíritos. Teve
depois, muitos, muitos anos depois
medo da solidão. E acenderia estes
presentes: a gift to the ghosts, pois
os espíritos acostumam e, não raro,

nos acompanham.

***

Rua: sem Saida

 

Deitamos sobre o asfalto.

(nossos corpos atravessados,

era este o nosso pacto)

Esperávamos pelos carros,
mas os carros não passavam.

(Era noite, e os carros não passavam)

Não seríamos atravessados.

/ Mas você se levantou
passou pelo meu corpo
e depois se deitou

(deitou do outro lado)

Juntos recriamos o medo

: máquina-corpo-poema

de que se passarem por cima

nunca mais cresceremos /

 

***

Deus ex-machina

 

Pouco me importa
que a chuva me molhe
se estou à calçada.

Mas, se estou à calçada

(a um passo deste fluxo,
que me separa do outro
lado, dessa enxurrada
que é de lama, mistura
de água e desta gente

de barro)

é porque eu não misturo.

E, se por descuido,
um Deus ex-machina,
por simples desvio
do buraco e da lombada
alterar o meu destino,
eu sigo em frente, parado.

Pois ainda que grite

: fiho-da-puta!

ao súdito sem culpa

Nada secará a água
que não veio

da chuva.

 

***

Xangô

Para Fábio Aristimunho Vargas

Quase

sem nenhum

motivo a pedra ataque

pedra ataque para o vidro

quebra

na cabeça do melhor

amigo

o seu último

último suspiro.

O nosso azar

nos pedaços repartido,

como bolo ou migalha de,

e com brilho

próprio,

onde nele me reflito,

pois assim o imagino

algo imaginário

como espírito

que sigo.

O que atirou primeiro

a primeira pedra

e acertou

o vidro.

Eu o injustiço.

Nós errávamos.