Cristiane Sobral & seus poemas


Cristiane Sobral, Poeta homenageada no 30º Psiu Poético

Uma homenagem à poeta Cristiane Sobral

 

Cristiane Sobral nasceu na zona oeste do Rio de Janeiro em 1974, mas vive em Brasília desde 1990. É casada com Jurandir dos Santos Luiz e tem dois filhos, Malick Jorge de 6 anos e Ayana Thainá de 5 anos. É escritora, atriz e professora de teatro. É bacharel em Interpretação pela Universidade de Brasília (1998), licenciada em Educação Artística pela Universidade Católica de Brasília (2005), especialista em Docência Superior pela Universidade Gama Filho (2008), mestranda em Artes também pela Universidade de Brasília. Dirige a Cia de Arte Negra Cabeça Feita há 17 anos.

 

É coordenadora Intermediária de Direitos Humanos, Cidadania e Diversidade na Regional de Ensino do Núcleo Bandeirante – DF. Diretora de Literatura Afro-Brasileira no Sindicato dos Escritores do DF. É escritora imortal, ocupante da cadeira 34 da Academia de Letras do Brasil. Tem várias publicações em prosa e em verso, como os livros “Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção”, “Não vou mais lavar os pratos” e o mais recente “Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz”, além de vários textos publicados em antologias poéticas. Publica nos Cadernos Negros, antologia de literatura afro-brasileira desde 2002, com textos nos volumes 23, 24, 25, 29, 30, 32, 34, 35, 36, 37 e 38.

 

Escreve no blog www.cristianesobral.blogspot.com.br, de onde este texto foi adaptado.
Publica na página: https://www.facebook.com/CristianeSobralArtista/?fref=ts

 

Cristiane Sobral

No 30º Salão Nacional de Poesia Psiu Poético serão homenageados, além de Cristiane, os poetas Evely Júlia Silva, Adilson Cardoso, Cláudio Bento, Conceição Evaristo, Ronald Augusto & Waldemar Euzébio.

 

Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz

Só por hoje

Vou deixar meu cabelo em paz

Durante 24 horas serei capaz

De tirar

Os óculos escuros modelo europeu que eu uso

Enfrentar a claridade

Só por hoje

 

Só por hoje

Durante 24 horas

Serei capaz

De contemplar o que sou

 

Só por hoje

Encarar a claridade

Sem as sedutoras lentes

Que nos ensinam

A desejar ser quem não somos

 

Só por hoje

Desafiar a claridade

Com os escurecimentos necessários

De um olhar “3 D”

 

Só por hoje

Só por hoje

Vou deixar o meu cabelo em paz.

***

Miradouros
Se você puder me ver
além da cor
além do sexo
verás
tudo o que tenho
tudo o que trago
na alma

Terás que mirar
além do que sou
além do que tenho
mas só se puder perceber
com calma

Pigmentando a sua retina
eis que me dispo
em pele, alma
e essência.

***

Canto para a Mãe África

Mãe grande
Ouve minha voz decolonial!
África dos doutores de Tumbuctu
África do império Ashanti
África das amazonas do Daomé
África cuja música não é feita somente de tambores
África de sofisticados instrumentos como o khalam e o korá
África berço da humanidade
Mãe detentora das nossas raízes
Eu te saúdo!

“As pessoas da pessoa são inúmeras na pessoa”
Provérbio africano

***

Sangue do meu sangue

Ela era a filha da mãe invisível
talvez neta de outra mãe
separada dos filhos na escravidão

Era a filha da mãe que nunca viu
da mulher da qual desconhecia o paradeiro
em cujas tetas nunca mamou
O seu sangue era traidor ou salva-vidas?

Ela, a a filha da mãe incógnita
Talvez assassinada pelo SUS
Quem sabe trucidada pela polícia
Ou morta pelo mundo do crime

Ela, suposta filha de algum amor infernal
Ou de um estupro horrendo
de uma mulher sem saída aliada a um homem irresponsável

A filha sabe se lá de quem
cuja mãe, sangue do seu sangue
pode ter abandonado outros filhos também
por maldade
ou por caridade para que não desfrutassem de uma vida
tão desprezível quanto a sua.

***

Alforria

Muito além da Lei Áurea

Não vou mais cuidar do senhor
Agora quero um tempo comigo
Paquerar minhas carnes no espelho
Arreganhar os olhos com rímel
Sair

Não vou mais cuidar do senhor
Eu tenho outras coisas pra fazer
Liberta do exercício de cuidar de outrem
Talvez conheça meu verdadeiro valor

Não vou mais cuidar do senhor
Quero tomar um banho gostoso
Esfregar a consciência
Sem temer qualquer indecência

Não vou mais cuidar do senhor
Abaixo o discurso maniqueísta
A ilusão não pode sair mais cara que o sonho

Prepare-se meu senhor
Antes de sair
Quero gozar
Desfrutar a cama imensa
Serei muito mais do que você pensa

Este é um lema para manter
Terei tempo pra ser e não ser
Não vou mais cuidar pelo senhor
A vida é curta para não desfrutar do amor.

***

Saída de emergência

Para os dias de escassez
cujos saldos apontam para notas esparsas e frígidas
orgasmos múltiplos à luz do dia
beijos de língua sem parcimônia
paixão sob o pôr do sol gratuito.

***

Navio Negreiro – Atenção não é Disney

Até quando os nossos meninos pretos mortos
Sem chinelos, pés tortos
Até quando nossas mulheres
Arrastadas
Pelo capitão do mato destruídas
As famílias
Até quando o meu pão será com moedas
Até quando veremos as quedas?
Nossos gritos são abafados pela TV
Onde a gente não se vê.