Cláudio Bento & seus poemas


Claudio Bento, poeta e compositor

O poeta e compositor Cláudio Bento será homenageado no 30º Salão Nacional de Poesia Psiu Poético

Cláudio Bento nasceu sob o signo de libra na cidade de Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, a meio caminho do sul da Bahia. Já foi premiado em concursos literários no Brasil e no exterior, tem poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, na revista Telas e Artes e em jornais alternativos em vários estados brasileiros. Cláudio Bento trabalha também ministrando oficinas literárias, fomentando o incentivo à escrita e à leitura, além de desenvolver projetos culturais em bibliotecas de escolas públicas estaduais da capital e do interior de Minas Gerais. O poeta sempre participa de maneira efetiva de movimentos populares, como o Festivale – Festival Da Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha ou de feiras de livros, festivais de poesia, de música, de folclore. Em dezembro de 2007 o poeta foi agraciado pela Escola Estadual Henrique Heitmann, de Jequitinhonha, sua terra natal, que denominou sua biblioteca com o nome de Cláudio Bento, honra maior para um escritor.

 

É autor dos livro de poesia Jequitinhonha e outros Poemas, Inventário da Infância e da coletânea Dois poetas e uma cidade, em companhia de Cláudio Duarte, entre outros.

 

Juntos com Cláudio Bento, serão homenageados os poetas Adilson Cardoso, Cristiane Sobral, Evely Júlia Silva, Ronald Augusto, Conceição Evaristo & Waldemar Euzébio.

 

Texto adaptado do blog do autor: claudiobento.blogspot.com.br

 

Cláudio Bento. Fotografia: Vilmar Oliveira

Cláudio Bento. Fotografia: Vilmar Oliveira

 

 

 

Menino sentado na canoa

O menino ficava sentado na canoa
Sob o sol quente do verão

O rio passava entre pedras
As lavadeiras lavavam roupa cantando

Contando histórias
Metendo as mãos na panela do dicumê

No céu de um azul de doer os olhos
Um bando de ariris fazia festa

Alzira de Nato dizia que era a chuva que estava perto
Lôi de Primitivo retrucava que era algazarra daqueles pássaros

O menino na canoa sorria com os pés mergulhados na àgua
Sonhando com a chuva

***

Eigth days week


A vida
Era a sala de projeções
Do Cine do Povo
Salão de carnavais
E filmes americanos

Nada sabia da vida
Do mundo
Sangrando
Em vietnãs revoltas revoluções

A vida era um quintal
Uma bananeira
Um cinema com alto-falantes
Emitindo
A última dos Beatles

***

Procissão do encontro

Um Cristo todo alquebrado
Irrompia a praça da igreja matriz

Do outro lado da praça o andor
Com Nossa Senhora vinha em direção ao filho

Quão piedosos os olhos daquela mulher

O encontro de mãe e filho comovia-me
Velas acesas iluminavam a sexta-feira da paixão

Os homens rezavam em voz alta
Meu coração de menino sentia uma enorme tristeza

***

Festa de São João

No tempo que era menino
A noite de São João era a noite em que se dormia mais tarde

Ficávamos assando batata doce na beira da fogueira
olhando um solitário balão cruzar o céu de junho

A noite de São João
Era a noite mais fria do ano

A quadrilha do Formigueiro
Enchia o ar da cidade com seu anarriê

As pessoas sentadas na soleira da porta comiam biscoito de goma
Bebiam licor de jenipapo
Esboçavam uma intensa e provisória felicidade

Os mais velhos dançavam no forró de Dona Anida
No forró pé-de-serra do Santo Lenho
Nas quadrilhas cada uma mais colorida que a outra

Menino como eu
Soltava traque chuvinha biriba busca-pé
E dormia na beira da fogueira de São João

***

O fio da memória

O espelho d`àgua da memória
É um fio
De lembrança

Daquelas canoas no meio do mundo
Daquelas ruas batidas de sol
Daqueles homens remando a esperança

O fio da memória
Permanece guardado
Na cacimba do tempo

Como permanecem guardados
O anelim da saudade
A cantiga de roda
O vento que soprava na cumeeira

O espelho d`àgua da memória
É um rio em delírio
Em desvario de àguas e peixes

***

Garimpo

Meu avô garimpava no rio
No embornal
Uma meia de pinga
Uma marmita de farofa
Palha para o fumo de rolo

Meu avô bateiava no rio
Dia a dia
Sol a sol

À noite ele manejava a máquina de projeção do cinema
Fred Astaire dançava na tela
Gina Lolobrígida tinha olhos estranhos e penetrantes
E Casinha Pequenina arrancou lágrimas de muita gente

Depois o cinema mudou de endereço
Vieram os filmes de kung fu

Meu avô morreu de complicações hepáticas
A televisão chegou e acabou com o cinema

O rio secou
E nem se usa mais garimpar com bateia

***